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sábado, 5 de outubro de 2013

Sexualidade Humana: início dos estudos científicos

Com o início dos estudos científicos e sistematizados da sexualidade humana durante o século XX, vários avanços foram obtidos e os sexologistas atuais concordam em que o modernismo sexual na teoria e na pesquisa foi introduzido por Sigmund Freud, na Áustria; Henry Haverlock Ellis, na Inglaterra; Magnus Hirschfeld, na Alemanha e Alfred Kinsey nos Estados Unidos.
“Com exceção de Freud, todos esses homens eram sexologistas entusiásticos que procuraram ampliar as fronteiras do comportamento sexual legítimo, reconhecer a existência da sexualidade feminina em paridade com a masculina, e questionar os contextos institucionais tradicionais da sexualidade humana: o casamento e a família” (Leiblum, e Pervin, 1982, p.27).

Os estudos pioneiros desses pesquisadores, embora tenham sido duramente contestados e criticados em sua época, propiciaram o surgimento de vários trabalhos antropológicos e transculturais nos quais eram questionados os preceitos rígidos e punitivos herdados da tradição judaico-cristã em relação ao sexo e suas práticas, os quais ainda influenciavam a moralidade das décadas iniciais do Século XX.

Dentre as várias pesquisas sobre o funcionamento sexual realizadas na primeira metade do Século XX, a que maior impacto causou foi feita por Kinsey e colaboradores (1948, 1953)
 “...as duas obras de Kinsey, Sexual Behavior in the Human Male (Kinsey, Pomeroy & Martin, 1948) e Sexual Behavior in the Human Female (Kinsey, Pomeroy, Marin & Gebhard, 1953) influenciaram profundamente a noção de comportamento sexual aceitável da sociedade, e suas generalizações sobre as práticas sexuais dos norte-americanos não foram significativamente substituídas ou rejeitadas por estudos mais recentes” (Leiblum e Pervin, 1982, p.33).
Entre 1928 e 1932, houve a constituição da Liga Mundial para a Reforma Sexual que organizou conferências anuais tentando obter a completa igualdade de direitos para ambos os sexos e a libertação do amor sexual do objetivo único de procriação. A realização destas conferências, a publicação dos trabalhos de Kinsey e os movimentos ideológicos para libertar o sexo da moralidade sexual rígida e punitiva do presente e do passado, constituíram um quadro irreversível para o avanço das mudanças sociais, sexuais e políticas do mundo moderno. (Wood, 1961).
Outro fator determinante de significativas mudanças no mundo moderno foi o aparecimento de um movimento de contracultura na segunda metade do Século XX (1950 a 1960) que pregava o amor livre, aceitava o aborto, a homossexualidade, a nudez em público e propunha a paz e um retorno à natureza.
O movimento para a libertação Gay, gerado no movimento da contracultura, assumiu características políticas, sendo importante para os estudos sobre sexualidade, pois foi a primeira vez que homossexuais enfrentaram os preconceitos e assumiram uma postura política (Gregersen, 1983).
Foi dado um passo à frente no estudo da sexualidade quando Masters e Johnson publicaram, em 1966, um livro intitulado “Human Sexual Response” resultado de um extenso trabalho de laboratório, caracterizado pelo rigor científico onde foi pesquisado o ciclo da resposta sexual humana com todas as variações anátomo - fisiológico. O segundo trabalho desses pesquisadores foi um livro intitulado “Human Sexual Inadequacy” (1970), onde foi proposta uma terapia focal para os indivíduos portadores de Disfunções Sexuais, baseada em princípios comportamentais.
Apesar de suas excelentes credenciais, Masters e Johnson defrontaram-se com a veemente oposição de seus colegas médicos que se comportaram com os mesmos preconceitos existentes no início do Século XX e, demonstrando a mesma posição, as faculdades de medicina retiraram os convites de trabalho a eles dirigidos, seus artigos foram recusados para publicação em revistas especializadas e o apoio universitário foi limitado tão logo iniciaram suas pesquisas sobre sexualidade. Apesar do grande interesse provocado pelos resultados de Kinsey, os profissionais mostraram-se refratários às pesquisas que tratavam a sexualidade humana como passível de observação direta (Leiblum e Pervin, 1982). Uma breve descrição dos trabalhos de Masters e Johnson pode ser encontrada nos textos anteriores aqui publicados.
O trabalho de Masters e Johnson prosseguiu e, em 1979, eles lançaram um livro intitulado “Homossexualidade em Perspectiva”, no qual enfatizaram as características desta orientação sexual.
Em relação ao comportamento homossexual pode-se afirmar, também, que ocorreram alterações nas concepções sobre o mesmo, através da história. Na Antiguidade Pagã, um homem apaixonar-se ou relacionar-se com pessoas do seu sexo ou do sexo oposto tinha o mesmo significado: um equivalia ao outro e o que se pensava de um, pensava-se do outro. A conduta não era classificada de acordo com o sexo do parceiro, ou seja, heterossexual ou homossexual e sim em atividade e passividade. Ser ativo era ser másculo independentemente do sexo do parceiro passivo.
A passividade era uma característica atribuída à mulher, cujo conceito era o de um ser inferior, amedrontado, limitado intelectualmente e ligada emocional e afetivamente aos outros. A racionalidade, a força e a coragem eram atributos valorizados e exclusivamente masculinos, o que resultou no julgamento negativo da passividade no relacionamento sexual.
Na Grécia, o termo pederastia significava o amor de um homem por um menino que já passara pela puberdade, mas ainda não atingira a maturidade. Havia toda uma legislação sobre a pederastia na qual se procurava estabelecer quais eram os padrões comportamentais socialmente aceitos em um relacionamento homossexual, tais como a idade e a classe social dos praticantes.
Para os romanos não havia o estigma do caráter homossexual da relação e sim o da servilidade e também o da sofisticação. O que importava não era só o aspecto passivo/ativo, mas sim o domínio e a paixão, sendo que na relação homossexual um homem era subjugado por outro e tanto na relação homossexual como na relação heterossexual a paixão enfraqueceria o cidadão soldado.
Embora o julgamento da homossexualidade partisse de considerações iniciais diferentes, a condenação de um homem – homossexual ou heterossexual – se atinha ao mesmo conceito: o de submeter-se ou a alguém ou ao prazer – independentemente do sexo do parceiro.
A concepção cristã de sexualidade, baseada em uma crença de que a procriação seria a razão básica para o intercurso sexual, viria a ser de fundamental importância no surgimento de uma nova moralidade sexual a partir da união entre o Estado e a Igreja.
Esta união aconteceu no Século IV. O Imperador Constantino aliou-se aos cristãos e a Igreja Cristã passou, através do cristianismo, a unir os vários e heterogêneos povos que faziam parte do vasto Império Romano. À concepção Cristã da sexualidade exclusivamente com fins de procriação adicionou-se a rejeição greco-romana de passividade e servilidade e foi proscrito o exercício da sexualidade que não atendesse a estes dois critérios. Qualquer outra forma de expressão da sexualidade passou a ser considerada um pecado contra a natureza visto que transgredia as duas condições impostas para a prática sexual: o intercurso sem paixão e a procriação. A homossexualidade era a situação mais visível de tal pecado.
Com a proibição dos prazeres a homossexualidade torna-se totalmente dissociada da heterossexualidade e, sendo esta a única prática admitida, aquela se torna anormal e proibida.
A concepção cristã da homossexualidade viria a ser adotada por outros setores que não o religioso, como a Medicina, que desde o final do Século XVII considerava a homossexualidade uma enfermidade que um exame clínico poderia diagnosticar. Tal postura determinou em maior ou menor grau, o estudo e julgamento da homossexualidade até o final do Século XIX sendo que até este período, os homossexuais eram considerados pervertidos sexuais que deveriam ser encarcerados.  


Referências
Ariés, P.(1987). São Paulo e a carne. In: Ariés, P.&Béjin, A.(Orgs). Sexualidades Ocidentais. São Paulo: Editora Brasiliense
Carlson, N.R. (2001). Fisiologia do comportamento. São Paulo: Editora Manole Ltda.
Gregersen, E. (1983) Práticas sexuais. A história da sexualidade humana. São Paulo: Livraria Roca Ltda.
Instituto Paulista de Sexualidade (2011). Aprimorando a saúde sexual. Summus Ed., São Paulo.
Kaplan, H.S. (1977). A nova terapia sexual. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira.
Kaplan, H.S. (1983). O desejo sexual. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira.
Leiblum, S.R. & Pervin, L.A. (1982). O desenvolvimento da terapia sexual numa perspectiva sócio-cultural. In: Leiblum, S.R. & Pervin, L.A. Princípios e prática da terapia sexual. Rio de Janeiro: Zahar Editora, S.A.
Lettner, H.W. & Rangé, B.P. (1988). Manual de Psicoterapia Comportamental. São Paulo: Ed. Manole.
Masters, H.W. (1979). A conduta sexual humana. 3ª. Ed.Trad.Dante Costa, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A.
Masters, H.W. (1979). A incompetência sexual. 3ª. Ed. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A.
Stahl, S.M. (2011). Psicofarmacologia: Bases neurocientíficas e aplicações práticas. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.
Skinner, B.F. (1953). Science and human behavior. New York: Macmillan.
Wood, D.A. (1961).Test construction: development and interpretation of achievement tests. Columbus, Ohio: Charles E. Merril.


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Características dos agressores sexuais infantis


Annie Wielewicki
Instituto Innove

Os dados dos estudos (Hall & Hall, 2007; Martins, 2008; Moura, 2007; Pechorro, Poiares, & Vieira, 2008; Sanfelice& De Antoni, 2010, entre outros) que buscam caracterizar o perfil dos agressores sexuais infantis podem ser divididos principalmente em: identificação de características como sexo, idade e proximidade com a vítima; identificação de características comportamentais e da história de vida dos abusadores; e, identificação da percepção dos agressores sobre as vítimas, sobre sua própria sexualidade e sobre o ato de abuso. Neste breve texto serão citados os dados mais frequentemente encontrados nos estudos. 

De acordo com dados brasileiros, a maioria dos abusos sexuais a crianças e adolescentes é cometida por homens (Moura, 2007), com idade entre 18 e 45 anos (Moura, 2007; Martins, 2008; Pechorro, Poiares, & Vieira, 2008), com vínculo biológico ou de responsabilidade com a vítima (Moura, 2007; Sanfelice & De Antoni, 2010; Martins, 2008). Quando o abusador é do sexo feminino, costumam ser jovens com cerca de 20 anos (Hall & Hall, 2007). 

Quanto às características comportaentais,Vieira (2010) destaca que é comum encontrar fracas competências sociais; baixa auto-estima; sentimentos de inadequação; sentimento de vulnerabilidade; dificuldade nos relacionamentos interpessoais com outros adultos; sentimento de que são fisicamente pouco atrativos; problemas em termos de realização sexual, humilhação e solidão; limitações para identificar emoções alheias, principalmente raiva, medo e nojo. Além disso, as atividades sexuais consentidas ou abusivas são utilizadas como forma de lidar com situações de estresse (Cortoni & Marshall, 2001; Hall & Hall, 2007). Nesse sentido, Cortoni & Marshall (2001) constataram que a freqüência de fantasias sexuais era aumentada em situações de conflito, raiva, solidão e humilhação e essas fantasias eram freqüentemente acompanhadas de masturbação. 

Em relação às características psiquiátricas dos abusadores, a literatura aponta que pouco menos de 5% dos agressores sexuais são psicóticos e o único diagnóstico consistentemente relacionado aos agressores é o Transtorno de Personalidade Antissocial, embora com alguma freqüência possam ser encontrados transtornos de humor, de ansiedade e abuso de álcool (Fisher, Ward & Beech, 2006; Pechorro, Poiares, & Vieira, 2008).

A respeito da história de vida do abusador, os estudos apontam que ter sofrido abuso na infância aumenta a probabilidade de cometer abuso na idade adulta (Kear-Colwell & Boer, 2000; Hall & Hall, 2007; Jespersen, Lalumière & Seto, 2009 e Sanfelice & De Antoni, 2010). Porém, os números à esse respeito são bastante variáveis e Hall & Hall (2007) indicam que a diferença de porcentagem de abusadores que sofreram abuso chega a variar nos estudos de cerca de 10 a 90% entre estudados. Jespersen, Lalumière & Seto et al. (2009) destacam que a experiência sexual de abuso na infância torna mais provável a prática de agressão sexual na vida adulta. Porém, destacam que essa experiência pode ser parte de um contexto maior de contingências aversivas relacionados a problemas na vida adulta.

Sanfelice & De Antoni (2010) entrevistaram três homens condenados por atos de abuso sexual e verificaram que todos os participantes tinham sofrido processo de adoção e tinham sido vítimas de violência intrafamiliar, incluindo exploração do trabalho infantil. Quanto a experiências sexuais, os entrevistados relataram a primeira interação como inesperada, principalmente por ter envolvido alguém com idade muito superior à deles. Para dois dos entrevistados, a experiência foi entendida como abusiva. 

Os estudos que buscam identificar a percepção dos abusadores sobre as vítimas, sobre sua própria sexualidade e sobre o ato de abuso, indicam que abusadores percebem as crianças como seres sexuais, que desejam e obtêm benefícios com o contato sexual com o adulto (Moura & Koller, 2008; Vieira, 2010; Sanfelice & De Antoni, 2010) e entendem como evidência disso o fato das crianças não resistirem ao abuso e manterem tal situação em segredo (Moura & Koller, 2008). 

Identificar características comuns àqueles que praticam o abuso sexual contra crianças pode direcionar o olhar do pesquisador e do clínico para dados importantes que possam auxiliar na elaboração de tratamento para agressores, como programas que busquem o desenvolvimento de repertórios que possibilitem lidar com situações de estresse de maneira mais adequada, desenvolvimento de comportamentos que possibilitem interação social satisfatória com adultos, entre outros e estratégias de prevenção desses comportamentos, como psicoeducação para pais, crianças e adolescentes, auxiliando na identificação de características do agressor.



Referências bibliográficas

Cortoni F; Marshall W.L.(2001)Sex As a Coping Strategy and Its Relationship to Juvenile Sexual History and Intimacy in Sexual Offenders. Sexual Abuse: A Journal of Research and Treatment, 13 (1). 27-43.

Fisher, D., Ward, T., & Beech, A. R. (2006).Pedophilia.In J. E. Fisher & W. T. O’Donohue (Eds.), Practitioner’s guide to evidence-based psychotherapy. New York: Springer.

Hall, R. & Hall, R. (2007). A profile of pedophilia: definition, characteristics of offenders, recidivism, treatment outcomes, and forensic issues. Mayo Clinic Proceedings, 82 (4), 457-471. 

Jespersen, A.F.; Lalumière, M.L.; Seto, M.C. (2009) Sexual abuse history among adult sex offenders and non-sex offenders: A meta-analysis. Child Abuse & Neglect 33, 179–192.

Kear-Colwell, Jon & Boer,Douglas P. (2000).The Treatment of Pedophiles: Clinical Experience and the Implications of Recent Research. International Journal of Offender Therapy and Comparative Criminology, 44 (5); 593-605.

Martins, C. B. G. (2008). Violência contra menores de 15 anos no município de Londrina, Paraná: Análise epidemiológica de suas notificações. Tese de Doutorado. Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. 

Moura, A. S. (2007). A criança na perspectiva do abusador sexual. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 

Moura, A. S., Koller, S. H. (2008). A criança na visão de homens acusados de abuso sexual: um estudo sobre distorções cognitivas.Psico-USF, 13 (1), 85-94. 

Pechorro, P.S; Poiares, C. & Vieira, R.X. (2008). Caracterização psicologia de uma mostra forense de abusadores sexuais. Análise psicológica, 4 (26), 615-626.

Sanfelice, M.M & Di Antoni,C. (2010). A Percepção do Abusador Sexual sobre a (Sua) Sexualidade. Revista Interamericana de Psicología /Interamerican Journal of Psychology, 44 (1), 131-139.

Vieira, S. M. A. (2010).Ofensores sexuais: das crenças ao estilo de pensamento. Tese de Doutorado em Psicologia. Universidade do Minho. 221p.
 
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